A beleza da gratidão

Por ocasião da cura de dez leprosos (Lc 17,11-19) Cristo patenteou a grandeza da virtude da gratidão. Com efeito, Ele sempre pronto a desculpar as falhas humanas, no entanto, quando um dos miraculados, que por sinal era samaritano, veio agradecer tão grande benefício, a indagação de Jesus foi uma recriminação aos ingratos: “Não foram limpos os dez? Onde estão, pois, os outros nove?” (v. 17) Ele mesmo deu o exemplo, rendendo, enquanto homem, graças ao Pai: “Pai, Senhor do céu e da terra, eu te dou graças porque escondeste estas coisas aos sábios e inteligentes e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, bendigo-te porque assim foi do teu agrado” (Lc 10,21).

A gratidão é uma linguagem do coração e é um dos mais belos atributos das almas nobres. É uma qualidade de reconhecimento pela bondade e delicadeza recebidas. Ela conduz à reverência e à dedicação para com o benfeitor. Faz expandir as vibrações luminosas de um espírito elevado que sabe valorizar os dons recebidos. É um ornamento precioso do cristão, dado que expande o esplendor de uma admirável nobreza interior. Torna-se, além disto, uma chave aurífera que abre a porta de outros benefícios de Deus e dos homens. Momentos de gratidão purificam o coração e dispõem o ser racional a novas atitudes dignas de um discípulo do Mestre divino. Perfume celestial que espiritualiza, uma vez que flui ao ritmo do amor, o qual valoriza as benesses recebidas, modulando a vida do cristão, porque inclui inúmeras outras qualidades, como a humildade, a urbanidade, a ternura, a benevolência. Daí a tendência a se estar atento às manifestações da dileção divina e humana, uma valiosa espécie de homeóstase espiritual sem fronteiras. Abre os olhos do ser pensante que passa a perceber as maravilhas que estão em seu derredor e aparta as lamúrias nas quais muitos mergulham sua existência. Ser grato é fazer uma experiência salutar de vida, deixando-se envolver nas belezas que povoam o mundo, louvando ao Senhor de tudo e uma demonstração de sensibilidade perante os favores granjeados. Mesmo na tribulação permitida pelo Ser Supremo a gratidão leva ao agradecimento pelas lições que o sofrimento proporciona e, até, a um sentimento de ação de graças perante algumas atitudes bruscas do próximo, dado que se tornam ocasião de gestos de perdão, os quais enriquecem espiritualmente e dignificam quem é epígono de Cristo. É a sublime energia que a gratidão confere a quem a cultiva. Viver em tudo esta virtude e transcender as tendências malévolas que conduzem à soberba e à dureza do espírito. No que tange a Deus é uma expressão basilar da criatura que, num frêmito de alegria e de adoração, descobre algo de Deus, da sua majestade e sua glória nas maravilhas que espalhou pelo universo, lhe rendendo louvor por tudo que dele se recebe a cada instante. São Paulo diagnosticou com precisão o grande pecado dos pagãos, ou seja, o “não terem dado a Deus nem glória nem ação de graças” (Rm 1,21).

Os salmos oferecem meio precioso para cantar hinos gratulatórios ao Onipotente. Cada benefício deste Pai bondoso deve ser sentido como momentos especiais no decurso de cada instante. É mister imitar Maria, a Mãe de Jesus, que assim se expressou: “Minha alma engrandece o Senhor, exulta meu espírito em Deus, meu Salvador” (Lc 1,46). Aí está o valor da Missa dominical, quando, após uma semana de tantas mercês divinas, em comunidade, participando da Eucaristia, todos juntos agradecem ao Todo-Poderoso e isto é uma garantia de benefícios maiores ainda para mais uma nova jornada semanal. As primeiras comunidades cristãs entenderam isto perfeitamente, concitadas pelos apóstolos. Lemos na Carta aos Efésios: “Entretei-vos uns com os outros com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando e salmodiando ao Senhor com todo o vosso coração, dando graças continuamente por tudo, em nome do Senhor Jesus Cristo, ao Pai e Deus” (Ef 5,19). Este agradecimento se prolongará por toda a eternidade, quando os eleitos proclamarão: “És digno, ó Senhor e nosso Deus, de receber a glória, a honra e o poder; porque tu criaste todas as coisas e pela tua vontade já possuíam um ser quando foram criadas” (Ap 4,11). Quem é grato a Deus o será também com os demais benfeitores que são canais dos bens celestes. Esta virtude enobrece o cristão e já Sêneca proclamava que “só os espíritos bem formados são capazes de cultivar a gratidão”.