A maternidade espiritual de Maria

Maria verdadeiramente Mãe de Deus, possui também a maternidade espiritual sobre todos os homens. Isto ficou claro lá no Calvário (Jo 19,26-27). A vida nova ia jorrar da Cabeça do Corpo Místico e ali estava a mãe da humanidade regenerada, porque Mãe do Salvador, Corredentora da raça redimida. Num testamento de requintado amor, revelando sua vontade derradeira, Jesus ia proclamar publicamente, solenemente, esta verdade alicerçada em duas colunas auríferas: a maternidade divina e a corredenção. Cristo acabava de abaixar seus olhos sobre os que estavam diante da Cruz, os quais Ele cingia como num abraço amigo. Contempla sua mãe e o amigo fiel. A ternura por aqueles dois seres e por milhares de outros, que Ele evoca através de um símbolo vivo, iria obrigá-lo a quebrar outra vez o silêncio. Dulcíssimas palavras, recolhidas com sumo carinho pelo único Apóstolo ali presente, pairam para grandeza e felicidade humanidade redimida: “Mulher, eis o teu filho … Eis a tua mãe”! Toda a Igreja, desde então, através de uma percepção universal dos fiéis e nos mais belos escritos que consagraram a pena de doutores famosos, compreendeu que João é aí um representante. Maria recebe de seu divino Filho o gênero humano em tutela. Os homens ganham Maria, mãe espiritual, herança sublime legada pelo Salvador. Num derradeiro adeus, levado por uma dileção imensa, Jesus proclama uma verdade, honra e glória de seus seguidores. Daí as sábias considerações de São Pedro Crisólogo: “Como por Eva nos veio a todos a morte, assim por Maria nos veio a todos a vida”. São Lourenço de Brindisi assim se expressou: “Como Eva foi mãe de todos os homens, assim Maria é Mãe de todos os cristãos, que são membros de Cristo, pelo que a Igreja se chama Corpo de Cristo”. De fato, todos os regenerados são filhos espirituais de Maria. Ela nos engendrou por vontade expressa de seu Filho à luz da graça, no meio das agonias e dores do Gólgota, entre os supremos tormentos do Redentor. Este sabia que os seus discípulos estariam expostos a numerosos perigos e, portanto, necessitariam da solicitude de uma mãe poderosa, aquela mulher extraordinária que fora escolhida como cooperadora por excelência da obra salvadora. Ela poderia ajudar os seus filhos a serem sempre fiéis e a cumprir sua missão de colaboradores na obra salvífica. Maria foi o presente mais valioso que Jesus poderia então dar à humanidade. Maternidade singular e universal de importância capital para a vida da Igreja. A magna tarefa de Maria seria fazer com que todos os cristãos crescessem sempre na fé, na esperança, no amor a Deus e na dileção recíproca. Eis aí o significado mais profundo da maternidade espiritual de Maria. Eis por que ela é também chamada Mãe da Igreja. Cabe, realmente a Ela a responsabilidade maternal no desenvolvimento de todas as manifestações da graça e na multiplicação de todos os dons e carismas que contribuem para a vitalidade do Corpo Místico de Cristo. Ela exerce uma ação constante para fazer triunfar a unidade da Igreja, não obstante todas as tentativas de divisão entre os cristãos. Aí está o motivo pelo qual Ela recebeu uma outra graça especial no dia de Pentecostes (Atos 1,14). Estava junto dos Apóstolos como um modelo de prece assídua e é de se notar que entre as mulheres que perseveravam na prece, formando um só coração e uma só alma, apenas o nome de Maria é citado. Embora chamada a cheia de graças pelo Arcanjo Gabriel ela como que teve necessidade de um novo dom do Espírito Santo para assumir a maternidade espiritual que Cristo lhe confiara. Para ser mãe de Cristo ela recebera um dom específico do Espírito Santo. Para realizar plenamente sua tarefa de mãe dos discípulos de Jesus ela aguardou a outra dádiva recebida no dia da vinda da Terceira Pessoa sobre os discípulos com ela reunidos no Cenáculo. Após Pentecostes, o Espírito Santo continuou a animar os Apóstolos, mas sobretudo Maria que havia sido sua cooperadora por excelência no momento da Anunciação. Disto resulta o grande amor que se deve ter a Ela, procurando cada um ter dela aquela visão de uma presença maternal efetiva que conduz a um amor sem fronteiras, a ela e a toda obra redentora de seu divino Filho. * Professor no Seminário de Mariana de 1967 a 2008.