A missão de João Batista
Professor no Seminário de Mariana - MG
E-mail: vidigal@homenet.com.br
Site: http://conegovidigal.blogspot.com/
Notável a missão do Precursor que se dizia “a voz que clama no deserto: Aplainai o caminho do Senhor” (Jo 1,23). Admirável servidor do Senhor, ele se preparou no deserto para cumprir a tarefa que Deus lhe confiara, empreitada tanto mais difícil quanto no seu tempo o coração do povo de Israel estava corrompido, inclusive os chefes religiosos de então. Eis por que as mensagens do Batista seriam válidas para todos os tempos no sentido de chamar a atenção para se aceitar o Redentor da humanidade, preparando as veredas para que Ele chegue a cada coração, plenificando-o com suas graças. Daí a força de sua expressão ao se dizer alguém que gritava, alertava, chamava à conversão. De plano, com seu exemplo ele indicava uma primeira decisão a ser tomada: uma profunda humildade. Dizia ele claramente, referindo-se a Jesus:“Eu não mereço desamarrar a correia de suas sandálias” (Jo 1,27). Na medida em que cada um esvazia o seu egocentrismo, a sua vaidade, o seu orgulho é que se abre passagem para o Filho de Deus. Este veio batizar com o Espírito Santo, lavando todas as faltas, conferindo a salvação. Cordeiro de Deus que tira os pecados da humanidade, Cristo opera esta maravilha apenas se há cooperação daquele que usa com perspicácia sua liberdade e O recebe, reconhecendo a necessidade desta libertação espiritual. Como embaixador enviado por Deus, João Batista patenteia a necessidade de uma atitude pessoal diante do Verbo de Deus Encarnado. Aplainar o caminho para a chegada de Jesus significa aparelhar-se com outras virtudes: a fé na pessoa e na obra de Cristo, o rompimento com tudo que esteja em desacordo com o Evangelho, numa fuga dos falsos prazeres mundanos e na busca ininterrupta da verdade. Trata-se de uma ação corajosa que não é nem simples nem fácil, uma vez que as ilusões podem impedir a luminosidade da presença do Filho de Deus, obstando que se perceba o cerne da dimensão histórico–sacramental de uma obra divina que supõe sempre a cooperação humana. Os seguidores de Jesus deste século 21 precisam, mais do que nunca, de uma renovação interior, passando do desalento à esperança, da tentação de se enredar nos hábitos esclerosados do mundo a um agir constante para que triunfem a justiça, a bondade e a paz. É que o Deus, que entra na existência de cada um, questiona, pois a novidade do Evangelho é uma luz que requer que se esteja desperto, pronto e decidido. Eis a advertência de São Paulo: “É chegada hora de despertardes do sono, que a salvação está agora mais próxima de nós do que quando abraçamos a fé. A noite vai adiantada, e o dia está próximo: despojemo-nos, portanto das obras das trevas e revistamo-nos da armadura da luz” (Rm 13, 11-13).Cumpre, de fato, explorar ao máximo o significado profundo do nexo que há entre Cristo que nasce no presépio e o que passa a existir no interior da alma humana, exigindo sempre uma revisão de vida. Na prática isto deve levar a uma preocupação de se transpor do acontecimento natalino a seu sentido vivencial, para converter-se num eficiente atuar evangélico de um testemunho que ilumina, arrasta e evangeliza o mundo. A espiritualidade do fato histórico ocorrido em Belém precisa ser traduzida em atos. A estatura pessoal do cristão encontra então seu lugar numa atitude crítica diante da sociedade que deve ser transformada. Com efeito, aquele que escutou os clamores de João Batista e abriu o caminho de Jesus dentro de si não pode definitivamente, passado o Natal, prosseguir na mesma rotina, nos mesmos erros, na mesma indiferença perante os males alheios numa acomodação inteiramente contrastante com o processo salvífico proposto por Jesus. Uma simplificação egoísta do Natal seria a daqueles que se imergirem nas alegrias próprias deste fato e por aí ficarem sem um comprometimento pessoal na obra redentora. Uma releitura da própria história se impõe, engajando cada um na administração responsável do mundo em que vive, agindo como profeta que denuncia tudo que não se coaduna com o mistério da Encarnação. Continuar a obra de Jesus é abrir os olhos, a mente e o coração diante dos acontecimentos, perscrutando a fundo os sinais desta época na qual os meios de comunicação pregam os maiores absurdos. Diante da mídia muitos cruzam os braços, não protestam, como se o batizado não fosse responsável pela melhoria da sociedade. Não basta, portanto, aplainar o caminho para a vinda de Jesus, mas, recebido este, uma mudança total deve ocorrer. A exemplo de João Batista, cada um tem uma missão no meio em que vive e a chegada de Jesus exigirá esta revisão de vida para a salvação pessoal e de toda a sociedade.
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