A parábola do Filho Pródigo

A parábola do Filho Pródigo bem pode ser dita a narração alegórica da misericórdia divina. (Lc 15, 1-3 – 11-32). Deus é amor, quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele”, como bem se expressou São João (1 Jo 4,16). Este amor tem uma forma peculiar, ou seja, a misericórdia.

Esta exprime o sentimento do coração que está sensibilizado pela miséria do outro. A misericórdia divina é seu amor pelos pecadores, isto é, por aqueles que estão longe dele ou por indiferença ou mesmo por resistência à sua graça. O Evangelho nos revela, com efeito, que Deus ama os seres humanos não obstante suas inúmeras fraquezas que obstaculizam seus favores. Ele, porém, ama os homens e as mulheres exatamente por causa de suas fraquezas que suscitam sua compaixão para com todos.

É que sua dileção é infinita, sem fronteiras, sem medidas. Jesus, dando sua vida na Cruz para salvação da humanidade foi a manifestação suprema da comiseração do Pai. Foi o que explicou São Paulo: “Mas Deus, que é rico em misericórdia, impulsionado pelo grande amor com que nos amou,quando estávamos mortos em conseqüência de nossos pecados, deu-nos a vida juntamente com Cristo – é por graça que fostes salvos! (Ef 2,4-5). Paulo estava na alheta da explicação joanina: “Com efeito, de tal modo Deus amou o mundo, que lhe deu seu Filho único, para que todo o que nele crer não pereça, mas tenha a vida eterna.

Pois Deus não enviou o Filho ao mundo para condená-lo, mas para que o mundo seja salvo por ele” (Jo 3, 16-17). Pois bem, para melhor compreendermos a largura, o comprimento, a altura e a profundidade deste mistério que Cristo narrou uma parábola na qual fulge esta benevolência imensa do Ser Supremo. Patenteando o Coração de seu Pai, abismo incomensurável de ternura, Jesus se dirigia diretamente aos escribas e fariseus que estavam a murmurar contra Ele, pelo fato de dar bom acolhimento aos pecadores e de tomar a refeição com eles. Mostravam-se escandalizados por esta proximidade de Jesus com tais pessoas escroques, de má conduta.

Deus cumula de benefícios suas criaturas, mas numerosos são aqueles que malbaratam os dons celestes como o Filho Pródigo. Pelo batismo todos recebem uma herança maravilhosa, ou seja, o dom do Espírito Santo que torna o batizado filhos prediletos do Pai, por Jesus Cristo (2 Cor 1,22). Ao duvidar de Sua presença e de Seu amor, ao deixar de ter nele total e absoluta confiança nos momentos de dificuldade, ao abandonar o louvor que Lhe é devido, ao preferir as ocupações e cuidados diários às preces e a Seu serviço, e, sobretudo, ao transgredir um dos dez mandamentos cada um dissipa o legado recebido.

Mergulha então o pecador na miséria espiritual. O remorso, como o sentiu o rapaz da Parábola, já é um bom sinal de recuperação. Quem com humildade recebe então o influxo do chamado divino, está salvo, porque Jesus afirmou: “Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores” (Mt 9,13). O filho pródigo, reconhecendo seu erro, decidiu voltar para a casa de seu pai. Assim procedeu por mero interesse pessoal, porque ele lá ele teria comida, abrigo, mas no fundo era humilde, pois deseja ser um escravo e não mais ser considerado filho. Que cena admirável se deu então.

O Pai foi tomado de piedade, correu, o abraçou e o reintegrou no seu estado anterior. Estava tomado de compaixão por aquele que se lançara na desdita. Ele não o trata como servo, mas como filho dileto. Deus quer que cada um se sinta por Ele amado como bem retratou Jesus neste episódio. Eis o significado da vestimenta, do anel e do calçado com que aquele jovem, perdoado, foi agraciado. Pelo seu perdão Deus reveste o ser racional com sua da salvação, como bem se expressou Isaías: “Com grande alegria eu me rejubilarei no Senhor e meu coração exultará de alegria em meu Deus, porque me fez revestir as vestimentas da salvação. Envolveu-me com o manto de justiça” (Is 61,10).

Os dons batismais são recuperados pelo arrependimento, pelo propósito de emenda e pelo sacramento da reconciliação. O filho mais velho não conhecia a misericórdia do Pai e, por isto, o recrimina. Como não perdoa o irmão, ficou excluído da festa. Entre a Misericórdia divina e a Justiça divina Santa Teresa não hesitava e preferia a Misericórdia. Sigamos seu exemplo!