As quatro estações da vida

“Eis o Esposo, ide-lhe ao encontro” (Mt 25,6). Ir ao encontro de Deus, por vezes, parece ser uma tarefa muito difícil. Santo Agostinho já dizia que “na procura de Deus, é ele quem se adianta e vem ao nosso encontro”. Entretanto, os olhares menos atentos talvez não consigam perceber, durante vários momentos da caminhada, os constantes cuidados que o Senhor tem conosco, pois mesmo cumulando-nos de graças e bênçãos, ainda assim, o Senhor exige de nós alguns passos na fé, para que tal encontro aconteça.

Faz-se necessário para o nosso crescimento espiritual, passarmos por momentos de angústia, de silêncio, de aridez, de deserto… Às vezes, temos vontade de voltar atrás, ou de parar de caminhar, pois já não vemos a luz que nos guiava.

Assim, temos medo de ir para frente, temos medo do escuro. É o inverno da alma. Sentimos frio e nem ao longe vemos as chamas que outrora nos aqueciam. O convite de Deus no inverno é, pois, dar um passo na fé, mesmo na escuridão. Pois quando “o Sol do Amor se ausentar, não vou me preocupar, porque sei: por entre as nuvens Ele está a brilhar” (Santa Teresinha do Menino Jesus). E na escuridão, nós caminhamos…

Caminhando, nem percebemos o passar do tempo e quando nos damos por nós, podemos exclamar: “Eis que o inverno passou, cessaram e desapareceram as chuvas. Apareceram as flores na nossa terra, voltou o tempo das canções” (Ct 2,11s). Estamos, assim, na primavera da alma.

Neste período, tudo a nossa volta parece ter uma fragrância quase celeste. A caminhada torna-se mais fácil, mais agradável. É o tempo das canções no qual prosseguimos sem grandes dificuldades, atraídos pelo perfume do Senhor. E na alegria, nós caminhamos…

Talvez o findar desta estação, percebamos com mais clareza, pois apesar de o céu se tornar ainda mais azul e mais belo, o calor se torna, às vezes, desagradável. É o verão da alma. Não bastasse o calor forte, precisamos enfrentar as tempestades.

As chuvas de verão, apesar de rápidas, vêm fortes. Talvez pensemos que não vamos agüentar tamanha violência. Pode até ser que sejamos realmente abalados mas “sabemos que a tribulação produz a paciência, a paciência prova a fidelidade e a fidelidade, comprovada, produz a esperança. E a esperança não engana” (Rm 5, 3ss). Com esta esperança no coração, o pavor é dissipado. Ficamos tranqüilos, pois sabemos que é o próprio Jesus quem acalma a tempestade. Confiantes, damos mais este passo na fé. E na esperança, nós caminhamos…

Com as tempestades já acalmadas e o calor não tão intenso, entramos no período de quedas das folhas. É o outono da alma. A princípio pode parecer doloroso demais ver as nossas folhas, tudo o que julgamos ser nosso indo ao chão. Talvez até derramemos lágrimas! No entanto, para que ganhemos folhas novas, cheias de vida, é preciso que as folhas velhas caiam ao chão. É o natural do outono.

Nesta estação, Deus nos convida a um total desapego de tudo aquilo que é nosso. Ele quer nos dar uma vida nova, mas precisamos renunciar a vida velha. Dessa maneira, acolhendo a vontade do Senhor, sendo dóceis e obedientes, alcançaremos uma maior maturidade na fé. E no desapego, nós caminhamos…

Mais maduros na fé, já não sentiremos tanto frio com o chegar de outro inverno, mesmo que este venha até mais rigoroso; na primavera, sentindo ou não o seu perfume característico, entoaremos cânticos ainda mais belos e ditosos; o calor e as tempestades de verão não vão mais nos abalar; e, por sua vez, no outono seguinte, nossa vida será ainda mais plena.

Enfim, todos nós passamos por várias fases na nossa caminhada. Para alguns, o inverno parece longo demais e a primavera, em detrimento, demasiado curta; para outros, o verão parece forte demais e o outono muito exigente. Longos ou curtos, fortes ou fracos, exigentes ou fáceis, em todos estes períodos somos chamados a dar passos em direção a Deus, a irmos ao encontro do Esposo.

Dando todos estes passos, estaremos dando provas de amor ao nosso Deus. E se, porventura, as pernas estiverem cansadas de caminhar, não há problemas, pois “com amor, não caminho apenas, ponho-me a voar” (Santa Teresinha do Menino Jesus). E no amor… Ah! No amor, encontramo-nos com Deus.

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