E você, fará o quê?

Basta que os bons não façam nada para que o mal triunfe” (Edmund Bruke)

urubu_menino

Quando eu era adolescente, ouvi uma música mais antiga composta por um cantor norte-americano, Bob Dylan, cuja letra fazia perguntas que mexeram muito comigo. Lembro-me que em seus versos perguntava:

“Quanto tempo as balas dos canhões explodirão, antes de serem proibidas?
Quantas mortes ainda não serão necessárias para que se saiba que já se matou demais?

Quantos ouvidos um homem deve ter para ouvir os lamentos do povo?”

Recordo o quanto me fizeram refletir as perguntas desta música, o quanto me levaram a pensar sobre o significado da minha vida neste mundo. Na minha alma de jovem, cheia de sonhos e generosa, eu acreditava que devia fazer alguma coisa, que precisava dar uma resposta generosa…

Anos mais tarde quando já estudava em Viçosa, via alguns jovens que vendiam artesanato e outras coisas na entrada do refeitório. Havia um pôster, que adquiri por causa de uma frase que ainda hoje trago guardada em minha lembrança: “Meu povo um dia não terá fome nem medo. Fazê-lo assim é a minha vida”.

O tempo passou, muita coisa aconteceu em minha vida, mas olhando a história da humanidade, hoje continuo acreditando que devo dar uma resposta generosa às perguntas que fazia aquela música; penso também que devo, ao jovem que fui e que comprou aquele pôster para colocá-lo na parede de seu quarto, uma resposta sincera e coerente.

Ainda hoje continuo me perguntando quanto sangue ainda deve ser derramado para que saibamos que já se matou demais. Até quando a fome, a dor, o medo? Até quando suportaremos viver tão indiferentes aos insuportáveis sofrimentos dos povos africanos, às ditaduras de esquerda ou de direita que geram milhares de mortos ou à exploração dos grandes capitalistas que produzem bilhões de miseráveis? Até quando aguentaremos olhar os rostos pálidos de nossos jovens mortos pelo tráfico ou as lágrimas de tantas mães? Até quando tudo isto?

No tempo da minha ingênua juventude em que eu acreditava nos movimentos tornados ideologias, pendurei na parede do quarto um pôster de Che Guevara. Mais tarde, constatei que todas as revoluções que praticaram o horror a seu modo, destruíram os valores que as incentivaram. Hoje, estou cada vez mais convicto de que só a proposta de Jesus Cristo, que instaura o Reino de Deus por seus ensinamentos e a doação de sua vida, pode nos dar as repostas às questões mais cruciais para este mundo. Para mim, fica cada dia mais claro que só aderindo a Jesus Cristo e à sua proposta poderemos ajudar a responder aos desafios de cada tempo.

Alguém poderia afirmar que não podemos mudar as coisas e que não passa de utopia acreditar no contrário. Eu prefiro, no entanto, acreditar em Jesus e guiar-me em sua prática. Gosto de recordar que Ele disse que o Reino de Deus se parece com um pequenino grão de mostarda que o homem lança na terra e, depois de germinado se torna uma árvore, aonde os pássaros vêm fazer seu ninho (Cf Mt 13, 31-32). Acredito, de verdade, que nossos pequenos esforços, fundados na fé em Cristo e por amor a Deus e às pessoas, possuem uma força imensa que nós mesmos desconhecemos.

Precisamos ter fé, abrir nossos corações ao que Jesus nos diz para fazer e realmente fazer com empenho, com generosidade. Precisamos de jovens generosos que digam sim ao seguimento do Senhor; precisamos de pessoas que pensem menos em viver somente para si mesmas e abram seus horizontes para causas nobres; precisamos de profissionais audaciosos que, rompendo com a lógica do lucro sempre, se façam solícitos com os mais empobrecidos; precisamos de cristãos autênticos, dispostos a não pagar o mal com o mal, mas a vencer o mal com o bem, rompendo os ciclos de violências. O refrão da música que aqui citei afirmava, de maneira vaga, que a resposta às perguntas que propunha estava nas asas do vento. Eu prefiro afirmar que é em Jesus Cristo que encontraremos respostas.

Estou certo de que, se ouvirmos a voz do Senhor, seremos capazes de frear a força destruidora do mal, ainda que, aparentemente, sejam as nossas ações pequeninas como o grão de mostarda.