Entrevista para a Revista da RCC

1) Pe. Joãozinho, conte-nos sobre sua experiência pessoal com Jesus Cristo. Como aconteceu?

Não tenho testemunhos extraordinários. Tudo em minha vida aconteceu de modo muito simples, normal. Nasci em uma família religiosa. Via meus pais participarem na Igreja. Minha mãe foi minha catequista. Já aos nove anos aprendi violão e aos dez tocava na Igreja. Aos onze fui para o seminário. Tive uma ótima formação em 17 anos de estudos na Congregação dos Padres do Sagrado Coração de Jesus: Rio Negrinho e Corupá (Santa Catarina), Curitiba, Jaraguá do Sul, Brusque, Terra Boa (Paraná), Taubaté. Se tivesse que fazer uma nova tese de doutorado pesquisaria a Educação Integral nos seminários. Tínhamos aulas práticas de teatro e de música. A oração e a liturgia eram bem vivenciados. O esporte era diário. O cultivo da vida comunitária era constante. Tínhamos uma disciplina. Assim fui descobrindo mais e mais a pessoa de Jesus em minha vida e fui transformando tudo isso em canção. Hoje posso dizer que “Conheço um Coração, tão manso, humilde e sereno”. Entre os apóstolos me identifico mais com o jovem João, que pretende estar perto do mestre e viver um íntima amizade com ele. Espero ter coragem também de ficar abraçado com Maria ao pé da cruz.

2) E como surgiu sua vocação?
Lembro como se fosse hoje. Estava na quinta série. Havia mudado de colégio e precisava fazer amigos. Os seminaristas entraram no meio de uma aula e perguntaram quem desejava ser coroinha. Um monte de gente levantou a mão. Não sabia bem o que era aquilo, mas para encontrar amigos acabei levantando também. Resultado: lá estava eu todo sábado no clube vocacional que havia sido fundado pelo Pe. Zezinho. Um dia passaram um filme chamado “O sonho de Joãozinho”. Era uma das produções criativas do Pe. Zezinho que eu iria conhecer pessoalmente somente muitos anos mais tarde. Ele naquele tempo nem “sonhava” que eu existia. No filme o tal do Joãozinho sonhava com uma piscina. Ouvindo falar que seminário havia uma piscina o menino resolvia ir pra lá. Coisas de criança. Mas o filme mexeu comigo. Meu pai até que tinha a inscrição para o clube da cidade, onde havia uma piscina. Mas naquele tempo não tinha condições financeira para pagar a mensalidade. O jeito era ouvir o barulho dos mergulhos e conter a vontade de pular. Pensei cá com meus botões: -”No seminário mato esta vontade”. Resolvi aceitar o desafio de entrar, junto com outros 50 garotos, no seminário de Rio Negrinho. Quando desembarquei do ônibus fui logo procurar a piscina. Não encontrei. Só uma lagoa com sapos e aguapé. Hoje sei que aquela piscina fica no Seminário de Lavras, em Minas Gerais. Nunca tomei banho nela. Mas já não faz tanta diferença. Minha consagração religiosa e ordenação sacerdotal me leva a mergulha na fonte de Água Viva. Hoje sei que aquela piscina era apenas uma isca de Deus para me conduzir a um mergulho radical em meu próprio batismo.

3) Houve uma influência especial em sua história vocacional ? Se houve, de quem?
Muitos professores, formadores, família, foram importantes em minha tragetória. Fico mais padre a cada dia. Por isso que meu novo CD tem o título “Sacerdote para sempre”. São 15 anos de caminhada. Não é pouco. Uma pessoa que em um determinado momento teve um papel fundamental foi Dom Nelson Westrupp, hoje bispo de Santo André. Em 1975 ele era um dos sacerdotes que acompanhava as Equipes de Nossa Senhora, em Brusque. Foi ele que abriu as portas da congregação para mim. Hoje somos muito amigos e tenho com ele uma dívida de gratidão. Aliás, a entrada de meus pais nas Equipes de Nossa Senhora e minha entrada no Seminário mudou quase tudo lá em casa. Meu pai deixou alguns vícios que sangravam as finanças da família. A bicicleta foi trocada pelo primeiro carro. Mudamos de casa. Acho que Deus me tirou do convívio com meus pais e deixou lá abundantes bênçãos em meu lugar.

4) Quem é o Pe. Joãozinho? E o que o senhor canta?
Quando era garoto, com menos de 9 anos, brincava de celebrar missa e de tocar músicas do Roberto Carlos com o violão de plástico que minha vó me deu. Minhão mãe não cansa de lembrar a canção preferida do menino: “De que vale o céu azul e o sol sempre a brilhar… e que tudo mais vá pro inferno!”. Acho que não sou muito criativo. Depois de quase 40 anos continuo brincando da mesma coisa. Celebro missas de verdade e toco em um violão. Gravo discos e escrevo livros. Dou aulas de teologia e dirijo a Faculdade Dehoniana, em Taubaté (www.dehoniana.org.br). Mantenho meu BLOG na Internet (http://blog.cancaonova.com/padrejoaozinho). Terminei recentemente um doutorado em Educação, na USP e outro em Teologia Espiritual, na Universidade Gregoriana, em Roma. Prego retiros, cursos e apresentações musicais. Enfim… só mudei a canção preferida. Hoje prefiro cantar: “… e que tudo mais vá para o céu”. Esta é uma das frases do meu disco novo que ecoa em meu coração mas que foi solenemente pronunciada pelo meu irmão de congregação, Pe. Léo: “-Creia em Deus, busque as coisas do céu!” (música: Deus Agirá).

5) Como a RCC surgiu em sua história?
Quem primeiro me falou da RCC foi o Pe. Léo. Isto foi no ano de 1983. Fizemos o noviciado juntos, em Jaraguá do Sul. Ele era um bocado esquisito. Um jovem vindo da vida se misturando com seminaristas de carreira. Aprendi muito com ele. Umas das principais lições foi como pregar um retiro. Nos anos seguintes, lembro bem, pregamos alguns retiros juntos. Eu transformava as palestras dele em música. Um destes retiros foi na cidade de São João Batista. Nem imaginávamos que anos mais tarde ali nasceria Bethânia. Gravei a primeira música em CD no ano de 1989. Foi o Léo quem me apresentou ao Kater que produzia a coleção “Louvemos o Senhor”. Gravamos juntos o volume 5. Ajudei a produzir o volume 6 e o 7 e o volume 8 produzi sozinho, pois o Kater ficou doente. Somente depois disso é que gravei meu primeiro CD solo: “Conheço um Coração”, pelas Paulinas. Meu primeiro livro: “Cantar em Espírito e Verdade”, por Edições Loyola, foi graças às portas que o Léo me abriu naquela editora. E o primeiro retiro para músicos, em Londrina, foi indicação dele. Ele pregou minha primeira missa. Ele me deu as primeiras indicações sobre como credenciar uma faculdade pelo MEC. Hoje sou avaliador de universidade pelo Ministério da Educação. Como pode observar é uma longa história entre irmãos.

6) Deixe-nos uma mensagem sobre os 40 anos da RCC.
O povo de Deus caminhou 40 anos para chegar na Terra Prometida. Quarenta na Bíblia é um tempo de maturidade. Acabou o tempo da infância. A RCC começa a enfrentar os desafios da idade adulta. O principal deles é permanecer sacramento da brisa suave em um tempo de inverno, no qual a água viva pode congelar e tornar-se neve. A RCC pode cair na tentação da institucionalização do carisma. A instituição pode sufocar a intuição. Por outro lado, as estruturas mínimas são necessárias para manter vivo o carisma. Outro desafio grande é a RCC reencontrar sua missão de elo do diálogo ecumênico dentro da Igreja Católica. Pessoas como Matteo Calisi estão nesta empreitada. Acredito que teremos agradáveis surpresas neste sentido para os próximos anos. Um terceiro desafio é a comunhão entre a RCC e as numerosas comunidade que vão surgindo e que rapidamente se institucionalizam, pois têm fundador, sede, regra de vida, obras e… dívidas! Agradeço à RCC pela presença em minha vida nestes 15 anos de padre. Se hoje sou pai do povo é porque a RCC encarnou o papel de igreja esposa em minha vida, me amando do jeito certo e exigindo de mim caridade pastoral de esposo. Espero ser fiel e poder sempre de novo cantar: “Sacerdote para Sempre”!