O declínio e o abandono do exercício dos carismas

Enchei-vos do Espírito Santo
Enchei-vos do Espírito Santo

Entre os temas das Epístolas de Paulo estão os carismas. Ele assim exortou: “Reinflama o carisma de Deus que está em ti” (II Tm 1,6). Vamos refletir sobre a realidade de que os carismas precisam ser constantemente REINFLAMADOS, porque não são experiência estável, podendo diminuir até serem abandonados.

Os carismas sempre estiveram presentes na história da Igreja, em níveis variados de intensidade. No próprio Catecismo da Igreja Católica e nas encíclicas encontra-se o posicionamento atento da Igreja à realidade dos carismas, e à importância do seu exercício para o crescimento do Corpo Místico de Cristo:
– “… Esses carismas, tanto os extraordinários como os mais comuns e difundidos, devem ser recebidos com gratidão e conforto, porque são bastante adequados e úteis às necessidades da Igreja…” (Lumem Gentium n.12)”.

Benigno Juanes, padre Jesuíta, fala que há dois elementos que compõem o carisma. O primeiro refere-se a uma aptidão natural; o segundo refere-se a uma “dimensão nova que toma conta do indivíduo ou da comunidade, sob a poderosa ação do Espírito”. No segundo elemento, as aptidões naturais são exercidas “no poder do Espírito Santo” e “assumidas para o serviço da edificação e o crescimento do Corpo de Cristo…” (JUANES, 2001) Considerando esta definição, um serviço prestado na Igreja pode ou não ter um caráter carismático.

Este autor exemplifica: “Se tem boa voz, você deve estar aberto a ser utilizado pelo Senhor para uma profecia em canto: mas isso não condiciona Sua Obra nem necessariamente ocorrerá desse modo…” (JUANES, 2001). Portanto, o servo pode cantar, pregar e realizar outros serviços sem se abrir à realidade dos carismas. Mas a eficácia destes serviços cresce enormemente quando são realizados como um carisma e com o auxílio dos diversos carismas.

Uma pessoa pode simplesmente cantar músicas animadas, ou pode cantar músicas animadas inspirada por uma palavra de ciência, através da qual o foco da ação desejada pelo Espírito Santo foi indicado ao servo que canta. Não basta somente ter boa voz, nem tampouco usar técnicas de canto ou de comunicação. É fundamental que tudo seja feito sob a inspiração do Espírito, de forma carismática.

O servo tem uma pregação a fazer? A preparação prévia e o momento próprio da pregação podem e devem ser enriquecidos pelos carismas. Durante a preparação, a leitura orante da Palavra a ser pregada pode resultar em uma oração em línguas, porque o servo reconhece que não consegue penetrar tão profundamente nos significados que o Espírito quer inspirar a respeito daquela citação Bíblica. A oração em línguas pode preparar o coração deste servo para ter este entendimento mais profundo. Além disso, é sabido que as comparações, usando a imaginação dos ouvintes, são didáticas em uma pregação. Uma Palavra de Ciência colhida na preparação de uma pregação pode propiciar as comparações mais eficazes, que têm a unção para realmente “tocar o coração” dos ouvintes. A pregação pode ser desenvolvida a partir de uma profecia, colhida na reunião da equipe ou mesmo na oração pessoal de preparação do servo. Sabe-se que as profecias verdadeiras nunca contradizem a Revelação. O Espírito Santo atualiza aos fiéis o que já está na Revelação, a fim de “… edificá-los, exortá-los e consolá-los” (ICor 14,3).

Existe uma equipe de acolhida no grupo de oração? Os servos podem preparar pequenas lembranças baseadas na escuta de Deus, que pode dar as indicações, por exemplo, através de uma Palavra de Ciência, Profecia. Estas indicações vindas de Deus podem ser a inspiração do que deve ser falado na acolhida de cada grupo de oração. Por exemplo, em uma determinada reunião de equipe, Deus pode dar uma visualização de Deus-Pai abraçando cada um que chega ao grupo, e inspirar os servos a acolherem dizendo: “ Seja bem-vindo. Deus Pai ama você”. Em outra ocasião, Deus pode inspirar a acolher falando de esperança no poder de Deus: “Seja bem-vindo e se prepara porque Deus vai agir com poder”. Ou seja, cada acolhida pode ser realmente carismática, porque inspirada pelo Espírito de Deus.

É necessário fazer a catequese dos crismandos? O sacramento do Crisma tem um caráter de envio do fiel a uma missão na Igreja, sendo que este tem a unção do Espírito Santo Confirmada. Tal catequese será mais eficaz se preparada com o auxílio dos carismas, porque somos cativados para a missão quando percebemos que Jesus está vivo e é poderoso, e quer participar o seu poder para que atuemos com unção na nossa missão.

Em 2 Tm 1, 6, está expressa uma constante preocupação de Paulo em reanimar as primeiras comunidades: “Reinflama o carisma de Deus que está em ti” (IITm 1,6). Como a Revelação é destinada a todos os filhos de Deus, Paulo afirmou que há carisma em cada ser humano, que é membro do Corpo Místico de Cristo. O batizado tem o Espírito Santo, com os seus frutos, dons infusos e carismas. Neste sentido, reflitamos sobre o nome do movimento eclesial “Renovação Carismática Católica – RCC”. Costuma-se perguntar se você participa da Igreja Carismática ou não. A resposta é que você é Católico, e que todo Católico é Carismático, porque foi batizado. Portanto, não somente os participantes da RCC são carismáticos. Todo católico é carismático, no sentido de que os carismas já existem como potencial, independentemente da intensidade com que os usa, ou mesmo se não os usa. O que a RCC tem de diferencial é o fato de ser RENOVAÇÃO da experiência dos carismas na Igreja Católica.

E é exatamente no sentido de RENOVAÇÃO que Paulo afirma “REINFLAMA…”. Isso significa que aqueles primeiros anos da Igreja já foram suficientes para Paulo perceber que os carismas não são uma experiência estável. Portanto, quando se questiona porque os carismas aconteceram tão intensamente nos primeiros tempos da igreja, e não foram tão intensos em muitos outros momentos, a resposta é que desde os primeiros tempos da Igreja já foi sentida a mesma INSTABILIDADE de sempre! E Paulo, quando fala “Reinflama”, se dirige ao ser humano, ou seja, cada um tem que tomar a iniciativa de “reinflamar”. Os carismas são dons do Espírito Santo, portanto, é o Espírito de Deus Quem alimenta estes dons no fiel. Todavia, Deus faz questão que nós tomemos a iniciativa de reinflamar, significando que precisamos, além de desejar, pedir ao Espírito que renove estes dons. Esta realidade pode ser comparada ao ato de soprar sobre o fogo em um fogão à lenha. É a pessoa que toma a iniciativa de soprar, mas é o oxigênio do ar que alimenta e intensifica a combustão. Paulo, tendo convivido com testemunhas oculares das manifestações do poder de Jesus, já aprendera naquela época que os carismas, uma vez experimentados, não podem causar nas pessoas a determinação de perseverar em seu uso. A perseverança na prática dos carismas é um apelo do Espírito de Deus, mas depende de uma resposta constante do ser humano.

Surgem duas perguntas:

1) Qual (quais) o(s) motivo(s) para que um carisma, ou um serviço com o caráter carismático, não seja uma experiência estável, e portanto, necessite ser reinflamado?

2) Comparativamente, qual o perigo da instabilidade em um serviço que tenha o caráter carismático, em comparação com aqueles que não têm este caráter?

Um dos motivos para a necessidade de “reinflamar os carismas”, é que a experiência destes causa cansaço. Ser canal de Deus por meio de um carisma significa gastar tempo e esforços para que outra pessoa ou uma assembléia experimente mais intensamente a Deus. Significa muitas vezes debruçar-se sobre a carência do(s) irmão(s), e não simplesmente atendê-lo(s) de forma superficial. Por exemplo, muitos já se sentiram cansados pelo fato de escutarem com amor a partilha de uma pessoa, utilizando os carismas. O Dr Philippe Madre assim fala: “O abandono dos carismas… consiste em deixar de praticá-los porque se tornam assaz incômodos, ou levam a exigências fastidiosas, ou ainda por medo de que sua prática desacredite, junto a algumas autoridades, a notoriedade do grupo.” (MADRE, 1997)

Todo tipo de serviço resulta em cansaço, mas quando o serviço tem um caráter carismático, o cansaço vem acompanhado da percepção dos frutos mais eficazes da obra. Neste caso, o servo tem sempre uma motivação nova para pedir ao Senhor que renove as suas forças para servir mais. Portanto, este servo corre menos risco de abandonar a obra por cansaço. Por outro lado, quando servirmos sem abertura para o potencial dos carismas, corremos o risco de que o cansaço seja acompanhado por frustração pelo pouco ou nenhum fruto colhido. A conseqüência é o sentimento de desânimo, de achar que Deus usa mais intensamente os outros. Assim, o servo corre muito mais risco de se dirigir cada vez menos ao Senhor, podendo largar o serviço, e quem sabe, esfriar na caminhada de fé ou mesmo abandoná-la.

Então, qual o motivo para que em toda a Igreja, e não somente na Renovação Carismática Católica, existam tantos que não desistem do serviço? A resposta é que em toda a Igreja são realizados serviços que têm o caráter carismático! E qual o motivo para que, nos grupos e comunidades da Renovação Carismática Católica, o ardor missionário nem sempre é tão intenso? A resposta é que, na Igreja, inclusive na RCC, nem sempre os serviços têm esse caráter carismático!

O Dr. Philippe Madre ainda diferencia abandono dos carismas da realidade de declínio no uso dos carismas, pois o declínio é conseqüência da falta de esforços para crescer na experiência dos carismas, porque o uso destes “não se improvisa”. Benigno Juanes, SJ, insiste na realidade de que os carismas não são uma experiência estável, também como conseqüência de dependerem de uma dedicação contínua da pessoa em crescer na sua EXPERIÊNCIA e ESTUDO.

Portanto, o apelo de Paulo serve tanto para o perigo do abandono quanto para o do declínio: “Reinflama o carisma de Deus que está em ti” (II Tm 1,6). Resta a cada um de nós refletirmos sobre a responsabilidade de nossa missão na Igreja, e sobre a importância de realizarmos esta missão sempre de forma carismática. Se você percebe o risco do abandono ou do declínio no uso dos carismas, peça a Deus que lhe dê uma nova Efusão do Espírito Santo, e se abra à manifestação dos Seus carismas.

Referências Bibliográficas:

JUANES, B., SJ. Introdução aos carismas. São Paulo: Edições Loyola, 2001, 198 p.

MADRE, P. Levanta e anda! O carisma de fé. São Paulo: Edições Ave Maria, 1997, 136 p.

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